As bandeiras de Orádia: Transformando simbolos cívicos em estandartes carnavalescos

Das muitas possibilidades que a internet traz para dialogar sobre carnaval, sem dúvidas, encontrar produções artísticas que abordam a festa é sempre um prazer em meio a tantos comentários online destemperados por vários indivíduos da bolha carnavalesca. O Carnavalize encontrou um desses prazeres: as bandeiras de Orádia.

Orádia Porciúncula começou a desenhar aos 9 anos de idade, e hoje, aos 40, é uma ilustradora/artista visual autodidata. A carioca tem o universo das Escolas de Samba como um dos principais temas para desenvolver ilustrações, além de desenhar sobre diversos elementos, personalidades e tradições das culturas populares brasileiras. “Eu sempre gostei de carnaval, desde criança vou pra Sapucaí, especialmente setor 1… o carnaval como trabalho sempre pareceu algo muito distante pra mim, até que em 2020 participei de uma escola virtual, ali conheci gente do carnaval, foi quando comecei a fazer ilustrações de enredos das escolas e não parei mais”, revelou ela.

Suas produções não são inéditas para quem acompanha carnaval, pois é bastante comum, enquanto se rola o feed, encontrar as artes de Orádia sendo compartilhadas; e, para além do online, seus traços podem ser encontrados em outros meios, como nas obras literárias “Oráculo dos Orixás” (2019) e “A Menina Que Queria Rodar a Baiana” (2025), às quais a artista assinou a ilustração. Entretanto, nos últimos meses, uma coleção de bandeiras confeccionadas por ela, unindo as temáticas dos enredos aos Estados brasileiros originados, gerou bastante repercussão, elogios e compartilhamentos nas redes.

A artista contou ao Carnavalize como foi o estalo para realizar as criações: “A primeira ideia foi [a bandeira] da Mangueira, escutando o Samba 15… [com] o trecho ‘Estação Primeira do Amapá’, surgiu a ideia de uma bandeira do estado, mas com cores e símbolos da escola e do enredo; as pessoas gostaram e prossegui com outras agremiações”. A partir desse momento, Orádia começou a se debruçar ainda mais sobre o universo de cada enredo para buscar diversas referências e assim construir o conceito de cada bandeira: “Eu buscava estudar o enredo antes de desenvolver as artes, de forma a ilustrar o conceito do enredo”, conta a artista.

Ao Carnavalize, a ilustradora compartilhou detalhadamente suas principais ideias para cada obra, as referências que utilizou e as inspirações relacionadas ao universo temático. Abaixo, confira cada uma das bandeiras com seu destrinchar criativo:

Estação Primeira de Mangueira (Bandeira do Amapá)

“A elaboração desta bandeira representou um desafio. Isso se deve à figura de Mestre Sacaca; apesar da facilidade na compreensão da sinopse, quanto mais eu me aprofundava em seu universo, mais coisas apareciam. Quando dei por mim, o universo de Sacaca e Mangueira se entrelaçavam, e daí surgiu a ideia da bandeira do Amapá estilizada. Verdadeiramente, o universo de Sacaca exige mais do que pesquisa: é necessário compreender a fundo uma realidade afro-indígena, repleta de nuances culturais e espirituais.”

Grande Rio (Bandeira de Pernambuco)

“Na elaboração da bandeira dedicada a Chico Science, foram incorporados diversos elementos que representam tanto a identidade do artista quanto o movimento cultural MangueBeat. As letras das músicas de Chico, marcantes por sua poesia e crítica social, aparecem como destaque na composição, reafirmando a relevância de sua obra para a cultura brasileira. O chapéu e os óculos, acessórios característicos dele, também estão presentes na bandeira. Eles funcionam como símbolos visuais que remetem imediatamente à sua figura. Outro elemento central da bandeira é o caranguejo, ícone do MangueBeat, o brasão da escola e a estrela de seu único campeonato até o momento.”

Mocidade Independente de Padre Miguel (Bandeira de São Paulo)

“Rita viveu intensamente São Paulo, sua terra natal, que ela por algumas vezes considerava careta. Essa percepção foi fundamental para a escolha dos nomes das músicas presentes na bandeira, pois refletem sua crítica atemporal com os tempos que estamos vivendo hoje. Os óculos, característicos de Rita, aparecem como um dos principais símbolos visuais, reforçando sua identidade marcante. Além disso, o castor, símbolo da escola, é destacado como um elemento tão carismático quanto a própria Rita, estabelecendo uma conexão afetiva entre a figura da artista e a comunidade representada.”

Beija-Flor de Nilópolis (Bandeira da Bahia)

“A bandeira da Bahia, estado onde acontece o tradicional Bembé, serve como base para a construção visual. Sua presença remete à força cultural e religiosa da região, sendo um símbolo de resistência, celebração e ancestralidade. A composição traz Oxum, Xangô, Exú e Iemanjá. Elementos como rendas, que remetem à tradição do vestuário afro-brasileiro, e búzios, que simbolizam a comunicação com o sagrado. Outro destaque visual é o beija-flor ilustrado em azulejo português, encontrado em algumas casas antigas de candomblé na Bahia. Essa referência agrega valor estético à bandeira, evocando o sincretismo religioso e o legado histórico presente na arquitetura e na arte popular baiana. Ilustrar essa bandeira me exigiu uma profunda espiritualidade.”

Portela (Bandeira do Rio Grande do Sul)

“A criação, com referência na bandeira do Rio Grande do Sul para o enredo, incorpora as cores tradicionais da Portela, promovendo uma conexão simbólica entre a escola de samba e o estado representado. Essa escolha cromática reforça a identidade visual e valoriza as raízes culturais presentes no enredo. Outro símbolo marcante é a coroa de Custódio, inserida como referência à tradição e à realeza simbólica associada à figura homenageada. Além disso, destaca-se a presença dos símbolos de Bará, especialmente as chaves de Bará Agelú, que aparecem junto às estrelas do pavilhão. Esses elementos são fundamentais para retratar a dimensão espiritual e de proteção no contexto da narrativa visual, enaltecendo a força das entidades cultuadas.”

Unidos da Tijuca (Bandeira de Minas Gerais)

“A elaboração da bandeira da Tijuca foi marcada por dificuldades, principalmente pela necessidade de superar elementos comuns e buscar uma representação genuína dos valores e da identidade da escola. Foram muitos esboços durante o processo criativo até que se chegou a uma proposta capaz de transmitir verdadeiramente o que a agremiação desejava expressar em seu enredo. O objetivo não era criar algo óbvio, mas sim construir uma bandeira que representasse de fato o legado preservado nos livros escritos por Carolina.”

Imperatriz Leopoldinense (Bandeira do Mato Grosso do Sul)

“A bandeira do Mato Grosso do Sul, estado natal de Ney, apresenta similaridade com a bandeira da escola de samba, estabelecendo uma ponte visual entre a origem do artista e sua trajetória. Entretanto, para compor a obra, optou-se por utilizar como fundo uma das múltiplas faces de Ney, ressaltando a versatilidade e a pluralidade de sua personalidade. Outro elemento de destaque é a coroa da escola, que foi estilizada e incorporada à bandeira. Essa coroa ganha um novo significado ao receber os conhecidos olhos do artista, símbolo marcante de sua expressão e identidade. Assim, a composição une referências à história pessoal de Ney e à tradição da escola.”

Salgueiro (Bandeira do Rio de Janeiro)

“Rosa Magalhães, além de lendária carnavalesca, é reconhecida como uma das mais importantes professoras da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Sua trajetória acadêmica e artística influenciou gerações de estudantes e profissionais do carnaval, consolidando seu nome como referência em criatividade e inovação no cenário artístico brasileiro. No contexto da representação visual, Rosa Magalhães assume um papel de destaque ao substituir Minerva, tradicional símbolo do brasão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essa substituição simboliza não apenas o reconhecimento de sua relevância, mas também a valorização da cultura e da arte nacional, estabelecendo um elo entre a tradição acadêmica e o universo carnavalesco.”

Paraíso do Tuiuti (Bandeira de Cuba)

“Iboru, Iboya e Ibosheshe representam as três mulheres que surgiram para Orunmilá, figura central nas tradições de matriz africana. A presença dessas mulheres é fundamental para compor a narrativa visual da bandeira, trazendo consigo a força e a ancestralidade femininas. A bandeira, inspirada em Cuba, é ilustrada nas cores da escola, ressaltando a identidade e o pertencimento. O tabuleiro de Ifá é incorporado à composição, simbolizando o conhecimento, o destino e a conexão com o sagrado. A integração desses elementos reforça a ligação entre tradição, espiritualidade e cultura.”

Unidos do Viradouro (Bandeira de Niterói)

“Na criação da bandeira dedicada a Ciça, conhecido como Caveira, foram utilizados elementos que remetem diretamente à sua trajetória. A base da composição é inspirada na bandeira de Niterói, cidade onde fica a escola. A caixa, instrumento que representa a força do ritmo e da cadência do samba, também possui os símbolos e estrelas da Viradouro. Na bandeira, um destaque especial é dado à frase em latim: ‘eu sou mais um batuqueiro a pular por você’ (ou expressão semelhante). Essa mensagem sintetiza o espírito de entrega e paixão do ritmista e seu respeito e admiração pelo mestre Ciça.”

Unidos de Vila Isabel (Bandeira do Rio de Janeiro)

“Para a elaboração da bandeira, busquei inspiração em algumas das obras mais reconhecidas de Heitor do Prazeres, especialmente aquelas que retratam guarda-chuvas e o chão da roda de samba. Esses elementos, recorrentes na produção do artista, foram fundamentais para nortear a composição visual, pois representam de forma singular a atmosfera das rodas de samba e a vivacidade das manifestações culturais populares brasileiras. Além disso, o símbolo da escola foi integrado à bandeira, criando uma fusão entre a identidade visual da agremiação e o legado artístico de Heitor do Prazeres. Essa combinação reforça o diálogo entre tradição e criatividade, resultando em uma obra que valoriza tanto a história do samba quanto a expressão visual da escola.”

Acadêmicos de Niterói (Bandeira do Brasil)

“A bandeira criada para o enredo de Niterói foi inspirada no conceito de ‘O Brasil da Silva’, estabelecendo um direcionamento claro para seu desenvolvimento visual. Essa proposta busca representar de forma simbólica e artística os elementos que compõem a identidade nacional, refletidos na trajetória do personagem central. Ao redor da bandeira, foram incorporadas referências às causas pelas quais Lula tem lutado durante toda a sua vida. Esses símbolos e elementos visuais compõem um mosaico de lutas sociais, culturais e políticas que marcaram sua história e contribuíram para a construção de sua imagem pública. Outro aspecto fundamental na composição da bandeira é o refrão do samba, que rapidamente conquistou a preferência popular. Essa escolha reforça o elo entre o enredo, o personagem e o povo, tornando a obra ainda mais significativa dentro do contexto carnavalesco e cultural do Brasil.”

As bandeiras criadas por Porciúncula foram repostadas por agremiações, fã-clubes, páginas de torcidas e acervos, e até materializadas em tamanho real em disputas de samba-enredo nas quadras — o reflexo de como algo produzido para a internet pode ultrapassar os limites do virtual e se materializar no mundo carnavalesco. A carioca ficou surpresa e entusiasmada com a repercussão: “Fico feliz que meu trabalho esteja sendo tão bem recebido, hoje em dia internet é algo tão instantâneo. Quanto à interação das escolas, é um reconhecimento que recebo com grata surpresa, jamais imaginei ver meu trabalho repercutindo de forma tão espontânea. Muito feliz mesmo”, comemorou a carioca.

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