Carnavalizadores de Primeira – Paulo Benjamin de Oliveira, quem fez o mundo azul e branco crescer

Por Beatriz Freire e Leonardo Antan

Em 1984, os “Contos de Areia” de Oswaldo Cruz e Madureira coroaram a inauguração do Sambódromo e a Águia altaneira alçou seu majestoso voo. Na letra do hino que embalou o título dividido da escola, um verso simbólico exaltou um personagem fundamental da escola: “e no ABC dos orixás/ Oraniã é Paulo da Portela”. Em uma viagem que mescla a história do personagem com a da própria história da agremiação, descobriremos quem de fato foi o deus negro responsável pelo crescimento deste mundo azul e branco.
Nascido no Rio de Janeiro na virada do século XX, Paulo Benjamin de Oliveira traz em sua história as transformações que seriam decisivas para história da cidade e o surgimento do samba. Viveu na lendária Praça Onze, teve o contato com os primeiros batuques e personalidades que começavam a moldar o gênero, posteriormente levando a novidade para os lados de Oswaldo Cruz e Madureira. O nome “da Portela” ganhou antes da escola que levou fama, era uma referência à Estrada do Portela inicialmente, que depois também batizaria a agremiação.

Em meio ao nascimento do samba e a busca de reconhecimento de um ritmo marginalizado, o Oraniã portelense foi figura à frente de seu tempo na luta pela dignidade negada aos sambistas por parte da sociedade. Paulo foi responsável por imprimir à classe uma figura de requinte, sempre bem alinhado, trajando ternos e chapéus que o colocassem numa linha respeitosa para os padrões da época.

Foi na década de 20 que se uniu às icônicas figuras de Caetano e Rufino e juntos fundaram o bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz. Mais tarde, desenvolvera um conjunto carnavalesco que se assemelhou ao que conhecemos como uma escola de samba e depois nasceria a Vai Como Pode, rebatizada de Portela em 1935. A história então começou a ser escrita.

Paulo e a Portela se tornam figuras decisivas nos rumos que moldariam o carnaval em sua primeira década. Entre serem aceitas para legitimar o samba e criar laços comunitários identitários, as escolas marcavam um grande empreendimento, abraçado por políticos e intelectuais, para criar uma nova identidade nacional. Paulo é, portanto, um artista e intelectual fundamental para nossa festa, sua visão civilizatória traria para as escolas temas ligados aos desejos nacionalistas do poder público, como “Carnaval Moderno” e “Academia de Samba”, criando também, logo em 1932, a primeira Comissão de Frente devidamente trajada e vestida ao estilo cartola e paletó, tornando símbolo a elegância portelense.


Compositor de muito talento, Paulo foi figura essencial para a diplomacia do samba, afinal, foi o responsável pelo diálogo e mediação dos dois lados de uma cidade claramente dividida e de uma cultura oficial que era excludente. Seu poder de articulação e a vontade de lavar do samba a visão preconceituosa que as pessoas imprimiam levaram à mídia e ao Governo de bandeja a possibilidade de construção de uma identidade e uma negociação. Seu legado foi reconhecido popularmente e pelos meios de comunicação da época, como o jornal “A Nação” que o nomeou o “maior compositor das escolas de samba”, em 1935. Além do famoso título de “Cidadão-Samba”, em 1937, pelo jornal “A rua”.


Cédula de votação do concurso de 1937.

Chamado de “professor”, o título não veio a toa, uma referência ao desfile que seria uma marco de sua importância e atuação. Em 1939, a azul e branco de Oswaldo Cruz apresentaria “Teste ao samba”, considerado por muitos pesquisadores como o primeiro desfile a unir samba e visual. Primeira referência da dramatização do cortejo, Paulo se vestiu de professor e entregou diplomas ao componentes da agremiação na frente do júri e também inseriu uma das primeiras alegorias da festa, um quadro negro onde se lia “Prestigiar e amparar o samba, música típica e original do Brasil, é incetiva o povo brasileiro”. Uma verdadeira aula de carnaval.


Infelizmente, em 1941, uma separação traumática entre criador e criatura aconteceria. Após voltar de São Paulo de uma série de shows com Cartola e Heitor dos Prazeres direto para o desfile portelense, o professor seria proibido de se apresentar, pois estava com um terno escuro e não azul s branco, nas leis de elegância que ele mesmo havia criado. Chateado por ter sido barrado do desfile da escola que fundou, Paulo comporia “Meu nome já caiu no esquecimento”. Apesar disso, ele ainda voltaria à agremiação num momento histórico, recebendo Walt Disney no início da década de 40, durante a Segunda Guerra Mundial. Como “presente”, ganhou um personagem pra lá de brasileiro, que botou os Estados Unidos de Roosevelt pra sambar com Zé Carioca na Política da Boa Vizinhança.
Se a Portela se tornou uma das principais e mais tradicionais agremiações cariocas, a responsabilidade passa pelas mãos de Paulo. E se as escolas de samba se tornaram um dos mais importantes símbolos da cultura brasileira, também. Paulo da Portela fez não só o mundo azul e branco crescer, mas, todo o mundo do samba, um carnavalizador histórico da nossa festa.

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