Depois de 2012, a Mocidade Alegre reaparece na lista com o último título de um tricampeonato que se encerrou em uma emocionante apresentação cujo tema era Fé. Muito inspirada na figura da presidente Solange Bichara, famosa por seus terços nas apurações, a vermelho, verde e branco do Limão falou de todo o tipo de fé no enredo que novamente contou com a assinatura de Sidnei França e Márcio Gonçalves. Abordando as diferentes maneiras de vivenciá-la, a Morada do Samba mostrou a religiosidade de várias partes do mundo e, notadamente, do Brasil.
Um dos destaques foi a comissão de frente comandada pelo coreógrafo Robério Theodoro. Ela representou o poder da sedução, com parte dos bailarinos vendados, guiados apenas pela voz do coreógrafo. Ainda que tenha gerado uma bela imagem, foi outro o grande marco daquele desfile: uma coreografia ousada que envolveu toda a escola, quando os componentes se ajoelhavam em determinados momentos do samba. A bateria do Mestre Sombra abusou novamente de bossas e paradinhas características. Outro destaque ficou com o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Emerson e Karina, que conquistou a nota máxima. Apesar de não ser uma unanimidade como 2012, o desfile possuí consistência técnica de sobra que contribuiu para o derradeiro título da escola na década.
Mais uma vez, a preto e branco não deixou a dever em emoção, como na bela Comissão de Frente da agremiação que contou com a presença de ninguém menos que Maria Rita, filha caçula da homenageada. Além dela, os outros herdeiros da cantora, João Marcelo e Pedro Mariano, também marcaram presença. Se comunicação com o público não faltou tanto pela obra musical quanto pelo enredo de fácil assimilação, a escola deixou a desejar nos quesitos plásticos, principalmente em alegorias. Apesar de problemático, o visual assinado por Alexandre Louzada, que dessa vez assinou com André Marins e Delmo de Moraes, não tirou a escola da disputa com uma apresentação muito mais ilustre nos quesitos musicais e de pista. Desbancando a tricampeã Mocidade Alegre, que também fez um ótimo carnaval, o Vai-Vai acabou conquistando o seu décimo quinto título da escola nos braços de seu povo.
Uma nação guerreira, a grande estrela desse carnaval! Parecia que esse verso do samba-enredo do Império de Casa Verde premeditava o que aconteceria naquele ano de 2016. Neste carnaval, a grande estrela da folia paulistana foi o renascimento da agremiação. A escola havia marcado sua identidade com grandiosos e luxuosos desfiles na década anterior, conquistando nada menos que um bicampeonato no período 2005-2006. O espírito opulento do Tigre, que estava adormecido, foi retomado com a chegada do carnavalesco Jorge Freitas à agremiação.
O enredo abordava os grandes mistérios da humanidade, passando pelo lado inexplicável da fé, da vida após a morte e da origem da humanidade. Com carros extremamente luxuosos e impecáveis fantasias, o casamento entre Jorge Freitas e o Império não poderia ter se iniciado de forma mais interessante. O abre-alas imponente possuía nada menos que 75m de comprimento e 15m de altura. Além de apresentar o melhor visual das duas noites, a comunidade da Casa Verde mostrou a sua força. Junta ao excelente desempenho da Barcelona do Samba, o chão colaborou ainda mais para a quebra do jejum que já durava dez anos, garantindo o terceiro título da história da agremiação.
Dragões da Real 2017
(Dragões canta Asa Branca)
Vem forrozear que o sanfoneiro vai tocar! Mesmo com pouca idade, a Dragões da Real se mostrava destinada a uma trajetória grandiosa na folia paulistana. A agremiação formada pela torcida organizada do time São Paulo se fixou no Grupo Especial logo na primeira metade da década e aos poucos foi conquistando posições e mais destaque. Assim, a competência da tricolor se confirmou com uma das grandes apresentações da década. Após temáticas mais lúdicas, a inspiração veio de um clássico de Luiz Gonzaga e a famosa Asa Branca guiou um enredo que homenageou o Nordeste do Brasil (que segurou o país nas costas nas eleições do ano seguinte).
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O abre-alas da Dragões da Real foi um dos grandes destaques do desfile. Foto: Acervo/Reprodução Dragões da Real |
Assinada por uma comissão de carnaval formada por Jorge Silveira, Márcio Gonçalves, Dione Leite e Rogério Félix, a agremiação da Vila Anastácio impressionou com suas alegorias e recursos criativos que renderem um belíssimo efeito. Além do visual, a vermelho e branco conquistou o público presente por meio do animado samba-enredo inspirado na música que foi eleita pela Academia Brasileira de Letras como uma das mais marcantes do século 20. A bateria comandada pelo Mestre Tornado ousou em paradinhas e bossas, elevando ainda mais o nível da apresentação. A comissão de frente representando o esforço dos sertanejos para conseguir plantar também causou forte comoção. A Dragões, então, escreveu seu nome na história no Anhembi com um desfile emocionante e valente. Uma pena foi que a alegria se tornou um lamento sertanejo na apuração. Inexplicavelmente, a escola perdeu o título na última nota no quesito samba-enredo para o Acadêmicos do Tatuapé, faturando apenas o vice-campeonato. A colocação não tirou o brilho de um desfile inesquecível da comunidade de gente feliz e arretada.
Acadêmicos do Tatuapé 2018
(Maranhão: os tambores vão ecoar na terra da encantaria)
A segunda metade da década de 2010 foi marcada pela competência de uma agremiação: Acadêmicos do Tatuapé. A história vitoriosa começou anos antes, em 2016, quando a azul e branco surpreendeu ao conquistar o vice-campeonato homenageando a coirmã carioca Beija-Flor de Nilópolis. No ano seguinte, o esperado primeiro título da história da escola foi conquistado em cima do desfile da Dragões comentado anteriormente. Depois, porém, para quem achava que tinham sido dois acasos, o resultado de 2018 acabou com as dúvidas e firmou o estilo de desfilar mais técnico do bairro da Zona Leste.
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Detalhes do abre-alas da escola da Zona Leste. Foto: Reprodução LigaSP |
Após uma passagem marcante no Tucuruvi, o carnavalesco Wagner Santos fez sua estreia pela agremiação e levou um Maranhão multicolorido ao público. No desfile foram abordados diversos aspectos da cultura do estado, como suas lendas e sua música. O carnavalesco, que é maranhense, já havia abordado o tema em 2010 pelo Tucuruvi, mas conseguiu apresentar originalidade na apresentação. Além do belo trabalho plástico, uma das principais forças no desfile foi o samba-enredo, considerado um dos melhores da safra. Ele foi onduzido pelo carismático e talentoso Celsinho Melody, uma revelação da década que também brilhou no Sambódromo carioca. A bateria do Mestre Higor se destacou com paradões e bossas ao ritmo de reggae, muito popular no Maranhão. A comunidade novamente deu conta do recado e mostrou que estava confiante em busca do segundo título. No desfile imponente e técnico, o carnaval de São Paulo se deparou com a confirmação de uma nova estrela.
Gaviões da Fiel 2019
(A saliva do santo e o veneno da serpente)
“Sou Gavião você pode acreditar”. Os Gaviões da Fiel tentavam voltar aos seus tempos áureos buscando as primeiras posições. Para isso, a escola decidiu apostar em uma reedição do enredo de 1994, que naquele ano os levou ao vice-campeonato. “A saliva do santo e veneno da serpente” foi assinada pelo carnavalesco Sidnei França e encerrou o carnaval de 2019 com um desfile arrebatador. A reedição contou a história, as lendas, os benefícios e malefícios do tabaco. Sidnei recontou o tema apresentado há 25 anos pelo carnavalesco Raul Diniz com seu toque. Algumas adaptações nas alegorias foram feitas, mas a essência do enredo se manteve a mesma.
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O abre-alas do Gaviões representa o medo e a fé. Foto: Marcelo Brandt/G1 |
A trilha sonora do desfile foi a principal atração. O samba-enredo é até hoje cantado pela torcida do Corinthians nos estádios, construindo sua grande popularidade. “Sarava, saravá, salve o santo guerreiro” foi entoado pela arquibancada no Sambódromo, fortalecendo ainda mais a apresentação. O público vinha abaixo com a escola a cada verso defendido pelo intérprete Ernesto Teixeira. Durante a apresentação, por alguns momentos o cantor dizia: “esse ano vai dar, eu falei”. A bateria do Mestre Ciro foi uma das melhores da noite e recriou as mesmas bossas apresentadas vinte e cinco anos antes. As alegorias, por sua vez, não apresentaram uma regularidade durante o desfile. Entretanto, isso não atrapalhou o espetáculo apresentado pela agremiação alvinegra. Assim, o carnaval de 2019 foi encerrado com uma apresentação estupenda, arrebatando todos que estavam presentes. Pena que a emoção do desfile não foi o suficiente para conquistar integralmente o polêmico júri paulistano, que deu apenas o 9º lugar a Gaviões.
Mocidade Alegre 2020
(Do Canto das Yabás, Renasce Uma Nova Morada)
Nossa Morada renascerá… Depois de conquistar seu tricampeonato, a Mocidade Alegre patinou entre apresentações que não mostraram a mesma força de antes. Após complicações, a escola pisou no Anhembi em 2020 buscando renascer e, para isso, resolveu apostar novamente em um dito enredo afro. Reforçando o time de carnavalesco da alvirrubra, Edson Pereira se juntou a Márcio Gonçalves e Paulo Brasil na assinatura do cortejo. O enredo “Do canto das Yabás, renasce uma nova Morada” foi responsável por encantar o Anhembi na apresentação plasticamente irretocável e com a força característica e única da Morada do Samba.
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“Nas águas de Iemanjá” foi um dos carros que mais chamou a atenção no desfile. Foto: Juliana Yamamoto/Carnavalize |
A narrativa exaltava o poder das orixás femininas – as yabás – para reconstruir o planeta. Através do canto das divindades, existia a esperança para que a humanidade melhorasse e retomasse sua conexão com Olorum, o criador do mundo, possibilitando com que a Terra voltasse a ser um paraíso. O samba-enredo forte e muito bem interpretado por Igor Sorriso embalou uma apresentação esteticamente impressionante, com destaques para o Abre-Alas com a Morada de Olorum e o segundo carro “Nas Águas de Iemanjá”. Este contou com 5 mil litros de água reutilizada em fontes e bolhas.
Mais uma vez, a Ritmo Puro levantou as arquibancadas e arrepiou o público com várias paradinhas e bossas. A comunidade do bairro do Limão também teve um excelente desempenho na busca pelo campeonato. Uma apresentação irretocável em todos os quesitos mostrou a força da Morada e a força das mulheres, que representavam 70% dos componentes no desfile. A agremiação não foi campeã – terminou na 3º colocação – mas nos presenteou com um espetáculo e com a certeza que a Mocidade Alegre renasceu.
Menções honrosas:
Não faltaram apresentações grandiosas e marcantes no Anhembi na última década e, por isso, a seleção não foi nem um pouco fácil. Procuramos traçar um panorama que mostrasse as transformações e o crescimento da folia paulistana, embaladas pelo investimento e o aperfeiçoamento de sua infraestrutura. Como comentado, esses aspectos contribuíram para o aumento da competitividade da festa, que coroou ainda o surgimento de novas protagonistas. Já que citar apenas dez desfiles era missão difícil, separamos alguns outros espetáculos que também valem ser relembrados como destaques dos últimos anos.
Rosas de Ouro 2012 (O Reino de Justus)
Águia de Ouro 2013 (Minha missão: O canto do povo, João Nogueira)
Mocidade Alegre 2015 (Nos palcos da vida, uma vida no palco… Marília!)
Acadêmicos do Tatuapé 2017 (Mãe-África conta a sua história: Do berço sagrado da humanidade ao abençoado menino da terra do ouro)
Império de Casa Verde 2018 (O povo, a nobreza real)
Mancha Verde 2019 (Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra)
Águia de Ouro 2020 (O Poder do Saber – Se saber é poder… Quem sabe faz a hora, não espera acontecer)
Dragões da Real 2020 (A Revolução do Riso: A arte de subverter o mundo pelo divino poder da alegria).
Para você, qual seria o #TOP10? Qual desfile colocaria ou tiraria da nossa lista principal? Comente com a gente! #CarnavalizeSP.
Além dos textos com as listas, o #PodcastDoCarnavalize também retorna trazendo os bastidores de cada escolha, das decisões, do que discordamos e concordamos, um dia após a liberação de cada #TOP10! Os membros do Carnavalize, de quarentena, reviram vários desfiles e votaram pelos 10 destaques de sambas, desfiles, comissões de frente, personalidades… É óbvio que não faltou debate! É conteúdo pra ler e ouvir durante as próximas três semanas! Se liiiga e carnavalize conosco!